quarta-feira, 11 de março de 2015

A vida boa que Ezequiel Castanha estava levando na Cadeia Pública de Itaituba

Aparelho de ginástica, cafeteira, placa de internet, impressora e notebook. (Foto: MPF)

Aparelho de ginástica foi retirado da cela. (Foto: MPF)


Fotos: Ministério Público Federal

A brincadeira custou a exoneração do diretor do Centro de Recuperação, Márcio Ferreira da Silva, notícia que o blog do Jota Parente deu com exclusividade no começo da tarde desta terça-feira.
MP flagra regalias na cela do maior desmatador da Amazônia, no PA
Aparelho de ginástica, cafeteira, frigobar, placa de internet, impressora e notebook. Todo esse material foi flagrado, nesta terça-feira (10), na cela de Ezequiel Antônio Castanha, considerado o maior desmatador da Amazônia, pelo Ministério Público Federal (MPF) e o Ministério Público do Estado do Pará (MP-PA). Após a flagrante, o diretor da penitenciária foi exonerado.
Após constatar as regalias concedidas irregularmente a Ezequiel, o MPF e o MPE vão encaminhar ofício à Justiça Estadual e à Secretaria de Estado de Segurança Pública e Defesa Social (Segup) para pedir o fim de privilégios concedidos ao acusado. Ezequiel Antônio Castanha foi preso no último dia 21 pela Polícia Federal e pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). A prisão é resultado da operação Castanheira, realizada em agosto do ano passado com o apoio do MPF e Receita Federal. Ezequiel acumula  mais de R$ 30 milhões em multas por crimes ambientais  e tinha prisão decretada desde agosto de 2014.
Os organizadores da operação desmontaram aquela que é considerada a maior organização criminosa especializada em grilagem de terras e crimes ambientais na região de Novo Progresso, no sudoeste do Pará. O grupo invadia terras públicas, desmatava e incendiava as áreas para formação de pastos, e depois vendia as terras como fazendas. O dano ambiental, já  comprovado  por perícias, ultrapassa R$ 500 milhões. O MPF denunciou à Justiça 23 integrantes da organização, que podem responder por um total de 17 tipos de crimes e ficar sujeitos a penas que variam de 13 a 55 anos de cadeia.
Exoneração: Em nota, a Superintendência do Sistema Penitenciário do Estado (Susipe) informou que “não tolera a existência de regalias ou objetos proibidos para detentos custodiados no Pará”. De acordo com a Susipe, diante do flagrante, foi determinada a imediata exoneração do diretor do Centro de Recuperação Regional de Itaituba, no oeste do Pará, onde está custodiado Ezequiel Castanha, cuja cela foi vistoriada e dela foram retirados objetos não permitidos. A Corregedoria-Geral do órgão deslocou equipe para a cidade, nesta terça-feira (10), a fim de colher depoimentos de servidores e responsabilizar quem facilitou a entrada dos itens indevidos na unidade prisional, o que será feito por meio de um Procedimento Administrativo Disciplinar (PAD).
Regalias: cafeteira, placa de internet, impressora na cela de Ezequiel Castanha. (Foto: MPF)
Operação Castanheira-Prisão de progressense continua repercutindo nas principais mídias do país. Folha de São Paulo -No Pará, preso soma 40 mi em multa por desmate
Multas de grileiro por desmatamento chegam a 40 milhões. “Se nós não desmatássemos, não existiria o Brasil. Não existiria nada”, afirmou Ezequiel Castanha, 50 anos, numa entrevista ao programa “Globo Rural” em meados do ano passado. Desde que essa declaração foi veiculada na TV, a vida de Castanha não foi mais a mesma, afirma o advogado dele, Valter Stavarengo. “Não tenho dúvidas de que passou a ser perseguido depois disso.” Preso no último dia 21 de fevereiro no Pará, em operação da Polícia Federal, Castanha foi novamente exibido na TV. Desta vez como “o maior desmatador da Amazônia”.
Entre 2006 e 2014, o homem que está hoje na cadeia em Itaituba (a 1.285 km de Belém) foi autuado 16 vezes pelo Ibama. Somadas, as multas chegam a R$ 40 milhões.
Segundo o órgão, Castanha foi responsável por invadir e destruir 5.621 hectares de florestas nacionais e terras de assentamento em Novo Progresso, Altamira e Itaituba, no Pará, para então negociá-las. A área é equivalente a 35 parques Ibirapuera. O prejuízo ambiental é estimado em R$ 500 milhões. A PF, que desencadeou a ação em agosto, o considera líder de uma organização criminosa que incluía gerentes (com a função de contratar mão de obra para transformar terras públicas em pastos) e até corretores de imóveis para negociar as áreas da União.
Os compradores dos lotes estão no Sul e no Sudeste, segundo o procurador Daniel Avelino. “Ainda não sabemos quantos são. Essa é a segunda fase do trabalho: responsabilizar esses compradores.” Em Novo Progresso (a 1.613 km de Belém), onde mantém um supermercado, Castanha é uma pessoa muito estimada, segundo seu advogado. “Ele se dá bem com todo mundo. É aquela pessoa paciente, que tem jeito para lidar com todos. Por isso, é comerciante”, diz Stavarengo.
De família de agricultores, ele nasceu em Tupi Paulista (a 646 km de São Paulo). Saiu de lá ainda moço, quando o pai, Onério, 76, decidiu investir em terras no Mato Grosso. Em Nova Monte Verde (MT), a família mexeu com café, mas logo migrou para a criação de gado. Casado e pai de dois filhos, Castanha decidiu abrir supermercados em Nova Monte Verde, Cuiabá e, depois, em Novo Progresso. No Pará, também comprou e vendeu terras. Assumiu ter desmatado parte de uma fazenda sua, que não mais lhe pertence. “A área desmatada ficava dentro do percentual permitido”, diz o advogado.
Segundo o Incra, Castanha tem oito propriedades em Mato Grosso, algumas transferidas aos filhos. Em 2008, em uma de suas terras, o governo encontrou 19 trabalhadores em condições análogas à escravidão. Quem cozinhava era um menino de 13 anos. Todos foram indenizados. Hoje, segundo o advogado, o comerciante toca apenas o supermercado. Para ele, o nome de Castanha é citado como integrante da quadrilha pela amizade que tem com os envolvidos. “São pessoas que fazem parte do dia a dia dele. A cidade é pequena”, diz.
Para o procurador Daniel Avelino, as provas do envolvimento de Castanha são robustas, pois houve gravações das conversas telefônicas entre os integrantes do grupo. Enquanto o processo, que envolve 23 pessoas, corre na Justiça, a destruição da Amazônia dá sinais de redução na região. O Ibama estima que, desde o início da operação, o desmatamento na região da BR-163, onde o grupo agia, pode ter caído 80%. Se for condenado em todos os crimes em que é acusado, Ezequiel Castanha pode pegar até 54 anos de prisão.
Por: Folha de S. Paulo:Foto: Juliano Simionato
Por: Jota Parente.

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